COLUNA DE ARTIGOS | DEZEMBRO VERDE: CONSCIENTIZAÇÃO E DEFESA DA VIDA ANIMAL

O mês de dezembro marca uma das campanhas mais importantes de conscientização sobre o bem-estar animal: o Dezembro Verde, movimento nacional de combate ao abandono e aos maus-tratos de cães e gatos. A iniciativa surgiu como forma de despertar a sociedade para um problema grave e persistente — o aumento expressivo de animais em situação de rua no Brasil, resultado direto do abandono irresponsável e da falta de políticas públicas efetivas de controle populacional e educação ambiental.

O abandono é uma das formas mais cruéis de violência. Estima-se que milhões de cães e gatos vivam atualmente em condição de vulnerabilidade (dados CNN Brasil, 2024), expostos à fome, doenças, atropelamentos e maus-tratos. Muitos desses animais são vítimas do descaso humano: são deixados em portas de clínicas veterinárias, em estradas, ou simplesmente descartados após deixarem de ser “convenientes”. Essa realidade é ainda mais evidente para o médico-veterinário que atua em ONGs e projetos sociais, onde o contato diário com esses animais revela a dimensão da dor e da negligência.

No dia a dia de quem trabalha com resgate, tratamento e adoção responsável, a luta é constante. Além de cuidar da saúde física dos animais, o veterinário atua como agente de transformação social — educando tutores, promovendo campanhas de castração, incentivando a guarda responsável e, muitas vezes, mobilizando a comunidade para oferecer uma nova chance de vida a cães e gatos abandonados. É uma rotina que exige empatia, técnica e, sobretudo, compromisso ético.

Hoje, temos dois exemplos marcantes que simbolizam essa trajetória de dor, resistência e esperança. A Pretinha, mascote da Comissão de Direitos Animais, é uma cadela que representa o reflexo mais duro da crueldade humana. Ela foi vítima de maus-tratos, jogada de cima de um cavalo dentro de um saco, junto com seus filhotes. Felizmente, foi resgatada por Heloísa, que se solidarizou com a situação, prestou os cuidados necessários, garantiu abrigo temporário e encaminhou os filhotes para adoção responsável. Apesar de a Pretinha ainda não ter encontrado um lar definitivo, ela se tornou símbolo de superação e resistência — uma lembrança viva de que o abandono deixa marcas, mas também pode inspirar empatia e ação.

Outro exemplo é o Apolo, cão de raça que mostra que nem mesmo o pedigree o isenta da crueldade. Ele foi abandonado próximo a uma fábrica, local onde a tutora Josélia o encontrou debilitado. A suspeita é de que o abandono tenha ocorrido devido a problemas articulares, condição que exigiria cuidados veterinários contínuos e geraria custos — algo que nunca deveria justificar o abandono. Josélia acolheu o animal, buscou atendimento veterinário e lhe devolveu dignidade. Hoje, Apolo vive bem, e sua história reforça que a compaixão ainda é capaz de transformar vidas.

Esses casos não são isolados, mas representam uma luta silenciosa travada todos os dias por pessoas e profissionais que se dedicam à causa animal, enfrentando a indiferença e o descaso de muitos. São exemplos que nos lembram que, embora o abandono seja recorrente, a solidariedade também resiste — e é por meio dela que o Dezembro Verde ganha força e propósito.

Historicamente, o Brasil tem avançado em marcos legais importantes. A Lei nº 14.064/2020 (Lei Sansão) aumentou a pena para maus-tratos contra cães e gatos, representando um avanço significativo na proteção animal. Além disso, diversas cidades têm implantado programas de esterilização gratuita, feiras de adoção e campanhas educativas, ampliando a conscientização sobre a posse responsável.

No entanto, os desafios permanecem: ainda há carência de políticas públicas contínuas, fiscalização efetiva e educação humanitária que desperte, nas novas gerações, o respeito à vida animal. O Dezembro Verde é, portanto, mais do que um mês de campanha — é um convite à reflexão, à empatia e à responsabilidade coletiva.

Ser veterinário em uma ONG (ONG Arca de Noé – Nova Serrana) é testemunhar diariamente o impacto do abandono, mas também é participar da esperança — de cada vida salva, de cada história reescrita. O Dezembro Verde simboliza essa resistência: um movimento que dá voz a quem não pode falar e que reafirma a necessidade de uma sociedade mais justa, ética e solidária com todos os seres vivos.

Nova Serrana – MG, 11 de novembro de 2025


Autor do artigo:

COMISSÃO DE DIREITO DOS ANIMAIS